Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2015

Irreal

Encontrámo-nos num desses cafés novos que enchiam agora as ruas do teu bairro, onde o azulejo e o mosaico frios de antes tinham sido substituídos por peles mais quentes, seria se em nós houvesse uma proximidade que nunca existiu. Sem o eco de outras conversas, do encostar apressado de copos e pratos, ficámos só os dois com as nossas palavras, e com o silêncio que cabia entre elas.

Contei-te a minha estória, cabia em dez linhas aquilo que te queria contar, fora sempre assim, que respostas podia dar a perguntas inixestentes, nisso éramos iguais. Dez frases hoje, diferentes se tivessem saído de mim há um, dez anos, eu mudava, a forma como eu vivera a estória mudava comigo. A vida acontecera, com outras emoções, com outros sonhos, sem ti.

Pedis-te mais um café. Eu a medir-me por dentro e tu no segundo café, sempre me desarmara essa tua aparente confiança, teria sido inteligente fazeres-te hoje, como antes, à minha altura. Enquanto desviavas a atenção de mim, tentei guardar cada pormenor do teu rosto, generoso, fundo, inconsequente, hoje ainda como na primeira vez que te vi. Lembrei-me daquilo que tinha permanecido no tempo. Tu para mim eras um sonho perdido, um amor que não nasceu. Eu para ti seria a soma daquilo que não acontecera. E nisso éramos diferentes.

Os teus olhos voltaram para mim e demoraste-os no retorno dos meus. Depois encheste o tempo com as tuas banalidades, com o enfado de quem procura magia em folha branca. Fosse aquela mesa quadrada, para te obrigar a escolher entre sentares-te ao meu lado ou no oposto de mim, mas diria que escolheste de propósito aquele café, feito de vidas redondas, como tu. Não sei se o teu pragmatismo te permitiu perceber que não foi a falta de geometria que me fez fugir, parti porque transbordavas em mim. Não havia nada a perdoar, quando nada era devido.

Já cá fora, no passeio que divide o lado quente de dentro e o caos da cidade que gela a superfície daquilo que somos, despedi-me de ti, esse limbo apertado colou-nos mais do que a vida, e assim à distância de não caber mais ninguém entre nós, ocorreu-me dizer-te o quanto tinha gostado de ti, mas não sabia em que tempo te devia conjugar. Num beijo deste-me o nosso momento pendurado no tempo e partiste. A vida é feita de palavras mudas, mas ambos sabíamos que tentar o inverso também não é fórmula que resulte em caminho. Talvez fôssemos obtusos para o amor.


publicado por agoraeu às 00:38
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